Pr. Carlos Mendes

            Meu filho é uma criança de explicações, ele quer explicação para tudo, e aqueles que o conhecem sabem que a principal palavra do seu vocabulário é porquê.  Tenho descoberto, nos últimos meses, que a necessidade de explicação dele se deve a uma baixa capacidade imaginativa.  Querer explicação para tudo limita as coisas, torna-as utilizáveis, tudo vira uma questão de obedecer, ensinar, ajudar e guiar. A explicação restringe, define e prende, nos faz ficar com os pés no chão e nos impede de olhar para além das nuvens. A explicação promover controle, como um arreio, reduzindo a vida ao que pode ser usado.

No entanto, gostaria de deixar bem claro, não sou contra a explicação, ela é necessária e tem seu espaço no mundo da criança. No entanto, ela precisa estar sempre acompanhada da imaginação. A imaginação dá espaço para que possamos adorar o que não entendemos, glorificar o que é maior que nós, exclamar, honrar, seguir e confiar, mesmo diante de um mundo tão imprevisível e perigoso. A imaginação eleva os olhos dos nossos filhos para além das nuvens, e nos lança ao mistério. Ou seja, a imaginação amplia a vida ao que pode ser adorado. Sendo assim, imaginação e explicação devem andar de mãos dadas, são praticamente irmãs siamesas.

Portanto, nós pais devemos sim dar várias explicações de como as coisas funcionam aos nossos filhos, mas, também, devemos ser mestres da imaginação, e nesse sentido, devemos nos juntar aos poetas, cantores e contadores de histórias como parceiros no testemunho do evangelho. Nossos filhos devem ouvir a poesia de Isaías e as parábolas de Jesus, ver as visões de João e as dificuldades de Jonas. Como seria triste nossos filhos crescerem, entrarem em uma igreja, onde há crentes adorando, a palavra sendo ministrada e única coisa que eles conseguirem enxergar é a calvície, a barriga e os cabelos brancos do pastor.

Por isso, hoje, gostaria de compartilhar com vocês algumas maneiras pelas quais tenho procurado desenvolver a imaginação do meu filho (tudo muito incipiente ainda). C.S. Lewis faz a seguinte afirmativa: “Enquanto a razão é o órgão natural da verdade, a imaginação é o órgão do sentido”, seguindo o raciocínio de Lewis falar de imaginação não significa construir uma visão fictícia a partir do nada, sem considerar a realidade do mundo criado por Deus que esta à nossa volta. Desenvolver a imaginação é afirmar o papel crítico que Deus deu à humanidade capacitando-a para construir e entrar em imagens mentais da realidade divina, que são medidas através das Escrituras e a tradição subsequente da reflexão e do desenvolvimento (Alister MacGrath). A imaginação nos ajuda a ter pontos de contato com a realidade criada e concreta de Deus, no entanto, invisível. Como os nossos filhos poderão orar em fé, sem imaginar? Como perdoarão? Como adorarão domingo após domingo? Se a imaginação deles estiver inativa, eles só verão o que podem usar ou algo que os incomoda.

A imaginação esta entra as grandes glórias do homem. Quando ela é saudável e enérgica, ela conduz nossos filhos à adoração e admiração dos mistérios de Deus. No entanto, quando ela é neurótica, preguiçosa, ela os torna preguiçosos, parasitas e vegetais. A fé pulsante é rica de imaginação, veja a Santa Palavra, ela tem a materialidade do Evangelho (Jesus visto, ouvido e tocado), mas também tem a sua espiritualidade (fé, esperança e amor).  A imaginação é essencial para que nossos filhos possam conectar o material e o espiritual, o visível e o invisível, o céu e a terra.

Compartilho, então, com você algumas práticas que tenho adotado com o nosso filho:

  1. Histórias bíblicas: as histórias bíblicas são ricas, abundantes e inspiradas, são, portanto, essenciais para o estímulo da imaginação. Para isso, dependendo da idade de seu filho é necessário que você adapte a linguagem, com palavras apropriadas e conceitos concretos. Leve em consideração também o grau de atenção de seu filho, dependendo, ensine lições relativamente curtas. Algo que talvez ajude e para o qual não vejo problema é o uso de encenações, inclusive fazendo-o participar da encenação. Atenção: não se esqueça que três coisas são essenciais ao contarmos uma história: as palavras, o tom de voz e a expressão facial. Treine, se for necessário. Busque desenvolver a leitura dialogal, ou seja, uma leitura em que os dois participam, depois de contar a história mais de uma vez (e eles adoram que se conte várias vezes), você pode pedir para que ele conte ou termine a história, ou até mesmo, pode fazer perguntas ao final da história. Mas não se esqueça: Toda a bíblia aponta para Cristo, então, não exclua Cristo da sua história, caso contrário, ela se tornará apenas uma história de fundo moral. E para fazer isso a imaginação se torna necessária.
  2. Histórias clássicas: Assim como as histórias bíblicas, elas ajudam no desenvolvimento da linguagem e estruturação do pensamento, mas há um benefício maior, a educação dos sentimentos (Cristiane Lasmar). Os bons livros transportam as crianças para outros tempos e lugares. Com elas as crianças tem a oportunidade de experimentar outras subjetividades. Elas precisam sentir e agir em situações que nunca experimentariam na “vida real”  e isso expande a sua imaginação afetiva e dando-lhe a condição de compreender melhor o próximo. Ou seja, a boa literatura dá a oportunidade de a criança se preparar para os relacionamentos da vida.
  3. Contos de fadas: Os contos de fadas originais eram bem mais dramáticos e violentos dos que os atuais, ou sua amenização contemporânea. Mas eles dão a oportunidade para que as crianças lidem, de forma segura, com temas centrais da experiência humana, pois sempre trazem um conflito existencial: há sempre um herói ou uma heroína que buscam algum tipo de realização pessoal e para chegar lá, lidam com várias dificuldades. Nos contos de fada o bem e o mal são bem definidos e antagônicos e o bem sempre vence. Sendo assim, eles dão a condição para que a criança organize as suas percepções e sentimentos.
  4. Fábulas: são aquelas pequenas composições literárias sempre protagonizadas por animais e com uma proposta de ensinar um comportamento e uma moralidade (Ex.: a história da cigarra cantora, do patinho feio, da tartaruga e a lebre). Apesar de serem protagonizadas por animais eles possuem contornos puramente humanos. Sua leitura enriquece o imaginário da criança a respeito das circunstancias da vida, seus relacionamentos, sentimentos e pensamentos.
  5. Por fim, gostaria de falar sobre as obras de Monteiro Lobato (meu companheiro de infância), essa última, estou começando a inserir no roteiro de leituras do meu filho. As histórias do Sítio do Pica Pau amarelo agregam elementos da nossa própria cultura ao imaginário infantil. Monteiro Lobato tem a habilidade de inserir as fábulas, e histórias clássicas ao imaginário infantil a partir da cultura brasileira. Através de intertextualidades, o escritor possibilita ao leitor o encontro com inúmeros personagens da ficção universal. Personagens como a Dona Carochinha, Pequeno Polegar, Pinóquio, Gato Félix e Peter Pan são alguns que passam pelo Sítio do Picapau Amarelo. Fantástico!

Bibliografia

Lasmar, Cristiane. Quais são as histórias clássicas que seu filho precisa conhecer? Disponível em: https://infanciabemcuidada.com/2017/01/04/quais-sao-as-historias-classicas-que-seu-filho-precisa-conhecer/

MacGrath, Alister. A Brief History of Heaven. Malden, Mass: Blackwell, 2003.

Priolo, Lou. O caminho para o filho andar. Ed. Nutra, São Paulo, SP.

  1. 17 de abril de 2017

    As ricas histórias de Monteiro Lobato são fantásticas, precisam ser resgatadas.
    Parabéns pela iniciativa e incentivo!

    “Quais os livros clássicos que nossos filhos estão lendo”?

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