por Pr. Carlos Mendes

Tenho sido confrontado pelo Es­pírito Santo, nos últimos meses, para com a pobreza da minha imaginação. E tenho percebido que isso afeta primariamente a minha relação com Deus, mas também a mi­nha relação com o próximo, em es­pecial com as pessoas que aconselho.

Imaginação, grosso modo, é a capaci­dade de fazer ligações entre o visível e o invisível, entre o céu e a terra, entre o presente e o futuro, entre o presente e o passado. Para nós crentes, nosso maior investimento deve esta no invisível (Mt 6.19,20) e para que possamos fazer ade­quadamente este investimento a imagi­nação é indispensável. Quando a nossa imaginação não é desenvolvida olhamos para as pessoas, situações e até mesmo para o próprio Deus como algo que pode­mos usar ou que nos incomoda. É a ima­ginação que nos ajuda a reagir em glória e louvor a Deus em qualquer situação. A imaginação nos leva à adoração, admira­ção e a penetrar nos mistérios de Deus. Mas tenho descoberto que a minha ima­ginação é preguiçosa e neurótica e que seu continuar assim me tornarei um pa­rasita, um vegetal. Preciso me lançar ur­gentemente à recuperação, ao exercício e ao desenvolvimento da minha imagi­nação A imaginação tem tudo a ver com fé, esperança e amor. Pois ela é um ins­trumento mental que nos ajuda a fazer a conexão entre o material e o espiritu­al, o visível e invisível, a terra e o céu.

Como conselheiro bíblico que sou, tenho necessidade de explicações. Afinal tenho a responsabilidade de ajudar as pessoas a saírem da confusão dos seus pecados e a ter vidas organizadas, então procuro or­ganizar tudo com rodo e balde na mão. No entanto, começo a compreender que a busca incessante por explicação revela o meu coração: um coração orgulhoso. Ora, o orgulho não consegue trabalhar no cam­po da dúvida, ele quer resposta pra tudo, andar em um mundo sem respostas e ex­plicações claras exige de nós humildade, exige que andemos por fé e não por vis­ta (Hb 2.4). No entanto, o querer expli­cação para tudo limita as coisas e me faz olhar para tudo à minha volta com a ex­pectativa de que eu possa pegar e utilizar.

A explicação reduz a vida ao que pode ser usado. Sim, seu sei que pre­cisamos de explicação para várias coisas na vida, não quero jogá­-la fora. No entanto, ela tem que andar de mãos dadas com a imaginação.

O que acontece quando procuro a explicação sem imaginação? Eu não consigo enxergar a grandiosidade do que Deus esta fazendo na minha vida e na vida de quem aconselho, eu tendo a reduzir a pessoa a mais um problema a ser resolvi­do, ou um item da lista a ser riscado. Eu não enxergo a grandiosidade do amor, misericórdia e salvação de Deus. E acabo reduzindo a minha vocação àquilo que realizo – estar no lugar certo, na hora certa, e falar o que é certo – e acabo interpretando tudo à luz das minhas próprias ideias e desejos. Não que isso não seja louvável. Mas acabo estranhando a graça de Deus. Sem imaginação tudo fica pequeno, reduzido. Sem imaginação acabo supondo o que Deus quer fazer e quando Ele não faz fico desapontado. Sem imaginação meus aconselhamentos acabam se tornando um trabalho administrativo ao invés de ser um contato com a graça surpreendente de Deus. Quantas vezes em meus aconselhamentos a si­tuação acaba se invertendo e o meu aconselhado é que me aconselha me mos­trando que a vocação que Deus tem para mim é maior do que eu imaginava?

A falta de imaginação promove irritação. Fico irritado quando as coisas não acontecem como eu espero. Quando o aconselhado não muda naquilo que eu queria que ele mudasse, no tempo que eu desejo, do jeito que eu que­ria. Ai a minha vocação como conselheiro se torna um mero trabalho religio­so. Ela me faz cego para a salvação que Deus opera na vida das pessoas. Eu só consigo ver um pecador sentado diante de mim, mais fraco do que eu, menos competente do que eu (quanta presunção!). Sem imaginação, eu não consigo ver graça e salvação e tendo a desistir depressa demais das pessoas.

Infelizmente, tendo a usar mal a minha imaginação e com muita rapidez ela vira pornografia eclesiástica. Começo a imaginar como seriam os aconselhados ideais, um centro de aconselhamento extremamente equipado frequentado apenas por pessoas famintas por aconselhamento e que desejam profundamente a mudança e que jamais mentem para os seus conselheiros. Imagino aconselhados motivados a mudarem, ou até mesmo me imagino dando aulas de aconselhamento em ins­tituições consagradas, onde a complexidade e confusão dos pecados das pesso­as estará longe de mim e são trocadas por outras categorias mais típicas do meio acadêmico, no entanto, menos bagunçadas: a ignorância e o conhecimento.

No entanto, por graça de Deus sou chamado à realidade e a viver nela, a pi­sar o chão da congregação onde pastoreio e sair da Ilha da Fantasia. Sou cha­mado a ministrar a um conjunto aleatório de pessoas que mentem no aconse­lhamento, que são confusas e não sabem o que querem, que confessam mais o pecado cometido contra elas do que o pecado que elas cometeram, que vi­vem sem entusiasmo, que ligam e desligam do aconselhamento de acordo com seus sentimentos, que são desajeitadas nos seus compromissos e irresponsáveis em suas orações. Essa é a minha realidade e é nela que sou chamado a viver.

Quando estou diante dessa realidade Deus me chama a ter imaginação e a ver beleza nessas pessoas, a ver a graça de Deus operando em seus corações a vislumbrar um casamento que pode ser restaurado, uma criação de filhos que pode ser ajustada, uma doença que pode ser vivenciada para a glória de Deus. E assim, tanto eu quanto aqueles que aconselho temos acesso às condições que são propícias para a maturidade da fé.

 

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